Direitos Humanos e Cristianismo

Uma Perspectiva Bíblica da Mulher

O Cristianismo é uma religião que nasce no Oriente, dentro do contexto judaico, no Primeiro Século. Liderado por Jesus de Nazaré, o movimento tomou proporções de alcance mundial ainda nos primeiros 100 anos de sua fundação e revolucionou profundamente a civilização de sua época. Neste período em que os direitos fundamentais ainda não haviam sido conquistados, os textos, que mais tarde se tornariam o Novo Testamento da Bíblia Canônica, trouxeram uma nova era para o mundo com suas interpretações e empoderaram as pessoas em funções de transformação social.

No entanto, ao explorar a história de então até os dias atuais, encontram-se sérias violações de direitos no Cristianismo, sobretudo a partir de sua expansão no continente Europeu. Tais abusos e segregação dos sexos datam de ideologias muito anteriores ao inicio da religião Cristã. A mulher já vinha, desde o período de Platão e Aristoteles, sendo rejeitada a sua participação na sociedade e não obstante os pensamentos greco-romanos, de que a mulher é um ser inferior comparado ao homem, se infiltraram o sistema de crença e cultura na era da Cristandade.

Desde os Pais da Igreja Primitiva e até os teólogos atuais, a influência do pensamento romano têm retirado da mulher o poder garantido pelas Escrituras Sagradas. A mulher foi estigmatizada como “o portal do diabo” por Tertuliano de Cartago, primeiro autor Cristão a produzir uma obra em Latim. Para Ambrósio, bispo de Milão (374-397 dC), as mulheres são seres inferiores por terem sido criadas em um mundo inferior, e os homens são superiores por terem sido criados fora do Paraíso. Já para Santo Agostinho, sob forte influência da filosofia grega, a função da mulher é somente para procriação. Esta cultura romana, de degradação do matrimônio e da mulher, não tem sua ideologia arraigada no Cristianismo, mas sim nos filósofos anteriores que acreditavam na mulher como ser irracional e desigual em virtude.

Se os pais da igreja eram preconceituosos em relação a mulher, precisa-se analisar os textos bíblicos se tal parcialidade é fundada e observar os escritos mais difíceis sobre o assunto. Somente quando tais textos são examinados à luz de para quem foram escritos, qual o contexto e o cerne da questão que pode-se aplicar tal entendimento aos dias atuais, de forma que a verdadeira ideologia de Jesus de Nazaré seja remida das influências negativas. Ao ler os textos sem o uso da longa tradição de desigualdade de gêneros, encontra-se um Deus que é contra-cultura nesse assunto. Ele é imparcial e não mostra preferência de homem em relação a mulher (Atos 10.34).

São Paulo talvez seja o autor bíblico mais controverso no assunto. Em suas viagens missionárias, nos seus ensinos e cartas, ele diz que a mulher não deve conversar na congregação. Ele fez tal declaração em um contexto cultural que já estava sob égide do pensamento filosófico greco-romano. A mulher não estudava, assim não sabia ler. Não era cidadã dotada de direitos cíveis. Mas o que o apóstolo São Paulo não estava dizendo era que a mulher deveria ficar nesta mesma posição social desigual. Pelo contrário, Paulo tinha as mulheres como participantes de suas assembléias, e interrompia o burburinho e toda conversa que atrapalhasse o seu ensino. Ora, uma mulher que não tem formação nem posição social dificilmente engajaria nos desafios da transformação da sociedade apresentados por Paulo. A mulher tinha um papel social excluído, e as Boas Novas que Paulo apresenta era includente. Assim, o que São Paulo realmente queria dizer, era senão em outras palavras, “vocês também podem aprender. O que ensinamos aqui também diz respeito a vocês mulheres, e se vocês desejam participar da novidade do Reino, procurem aprender, busquem seus maridos. Não atrapalhem a exposição que fazemos, mas sejam vocês também parte do Reino de Deus.” Onde o homem falhou na inclusão social da mulher e no papel dela como protagonista de sua história, o Evangelho de Jesus Cristo vem para redimir.

Em sua narrativa da criação da humanidade, Deus abençoa tanto o homem quanto a mulher e os colocam para governar/dominar a terra. A imagem da criação, do livro de Gênesis, traz em si a posição de igualdade, eles estão lado a lado. Na trajetória do Antigo Testamento e Novo Testamento, a mulher ocupa posição de destaque. Haviam juíza, profetiza, pregadoras e rainhas que marcaram a história dos hebreus, mas há também mulheres simples que mudam o destino da nação do povo de Deus: como a prostituta Raabe, que ao ajudar os espias na conquista da terra prometida, entra na genealogia de Jesus. Jesus, diferentemente de todos os líderes judeus a sua época, tinha discípulas. Ele destacou nos evangelhos como Maria sentando aos seus pés, i.e., aprendendo como uma talmid, era o lugar dela e ninguém a tiraria de seu posto. Foram duas mulheres que avistaram primeiramente a ressurreição do Senhor Jesus. Fica incontestável o valor atribuído a mulher na ótica Cristã.

Basta concluir que o Cristianismo tem sido sim opressivo a mulher, por não estar na sua forma pura, pois Cristo não o é. Como o apóstolo São Paulo insistiu: “não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3.28).

Bibliografia e Referência

  1. WRIGHT, N.T. Surpreendido Pelas Escrituras: Questões Atuais Desafiadoras. Viçosa: Ultimato, 2015.
  2. WRIGHT, N.T. Women’s Service in the Church: The Biblical Basis. Em: <http://ntwrightpage.com/Wright_Women_Service_Church.htm&gt; Acesso em: 10 março 2016.
  3. RUMP, Linda H. Is Christianity Oppressive to Women? Em: <http://www.christianitytoday.com/history/2008/august/is-christianity-oppressive-to-women.html&gt; Acesso em: 10 março 2016.
  4. SCHIRRMACHER, Thomas P. Human Rights and Christian Faith. Em: <https://www.phc.edu/gj_schirrmacherv3n2.php&gt; Acesso em: 10 março 2016.